Há muitos anos atrás eu assisti um filme, uma comédia em que o personagem levava um tiro e levantava em seguida, depois outro tiro e mais outro e assim dezenas de tiros e ele sempre se levantava, foi uma cena muito engraçada. Me pareço com ele; levei tantos tiros, esse último me dividiu ao meio, me rasgou o peito e me arrebentou por dentro, mas eu me levantei; talvez essa seja a comédia da minha vida, mas não é nada engraçada. As pessoas não entendem que eu tenho que me incentivar o tempo todo, seja qual for o objetivo ou a obrigação; preciso empurrar a mim mesma e procurar motivos; eu tenho necessidade de me enxergar já que estou viva; se eu compro uma blusa nova ou pinto uma parede; se eu me envolvo com a arte e a musica, é porque pequenas coisas me levam a mais um dia. Se eu tenho que viver por mais um tempo, o equilíbrio de coisas materiais me equilibra também; é importante pra mim que tudo esteja alinhado; tenho necessidade de organização e simetria. As pessoas não entendem o quanto eu preciso me sentir bonita, porque se tudo à minha volta se tornar lixo eu viro lixo também; sei que é difícil entender porque eu ainda lavo louça e quero panos de prato bonitinhos. É fácil se perguntarem: porque ela precisa de toalhas bonitas? Porque eu preciso do meu próprio carinho, porque para me estabelecer como gente eu preciso de qualquer tipo de beleza, conforto e sintonia. A vida que ainda tenho só serve pra mim e eu preciso do mínimo ajustado. Porque eu tomo remédios? Porque eu tenho relógio? Penso se um dia vou querer usar um batom ou ir ao cabeleireiro; se um dia vou sentir vontade de ir ao cinema ou fazer uma viagem e como vou lidar com isso. É difícil demais estar viva e ter que provar pra outras pessoas. Nada muda a dor que eu sinto, essa minha tristeza, mas as pessoas não entendem a indisponibilidade da morte. Se me falta o externo, busco em mim mesma o incentivo necessário; se já é tão pouca a importância que eu tenho, não preciso me sentir diminuída. Sei que se eu disser: Chega! Vão concordar comigo, mas quem não concorda comigo sou eu; vou chegar até meu ultimo segundo, mesmo que seja arrebentada, pra poder naquele momento dizer: consegui. Seja qual for o objetivo desta vida, mesmo que seja em função de outra, um destino me foi dado na hora em que nasci; sou eu, é a minha vida, por mais cruel que seja.
Escrito por maedavivica às 08h37
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