Filhinha, estou apavorada... Deixa eu te contar tudo. Há alguns meses comecei uma escultura no atelier da Rosalva, uma cabeça de uma mulher sorrindo, detestei e ficava perguntado: tá rindo de que? Abandonei a peça até a semana passada quando a trouxe para casa. Fui trabalhando nessa peça e de repente senti um choque; ela se parecia com você; não soube definir bem se eram os olhos ou o sorriso, mas parecia que você estava ali de alguma forma. Pensei: vou tentar retratar a Vi, mas aí a dor começou; filhinha, não consegui me lembrar de você... Pequenos detalhes de sua fisionomia sumiram da minha cabeça; acho que não ficava tão desesperada e descontrolada assim há muito tempo. Como posso me esquecer? As formas se embaralhavam em minha cabeça, ora a boca, ora os olhos; parece que tudo se misturava. Sua tia disse que eu não me esqueci de você, só não estou ainda preparada, talvez... Não sei dizer se é a dor que continuo sentindo, se é a saudade que aumenta a cada dia; talvez eu não esteja mesmo preparada pra lembrar tão detalhadamente de você; sei que estou apavorada, com um medo terrível de ter me esquecido. Cada poro de seu corpo era importante pra mim, então, como não me lembro? Talvez seja mesmo um bloqueio; até onde a dor pode chegar, o quanto consigo suportar; não sei filhinha, não sei... Cobri a peça, não sei o que fazer com ela, não consigo desmanchar, não consigo prosseguir. Filha, o que minha vida e sua morte estão fazendo comigo; um enlouquecer tão vagaroso e um esquecer tão rápido; nunca vou estar preparada pra perder você, mas esquecer? Eu me lembro de cada segundo em sua vida, me lembro do seu rostinho no minuto em que você nasceu, mas talvez já não me lembre de todos os detalhes, não pra retratar você.
Escrito por maedavivica às 08h36
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