Pic, pic Eu tenho saudade de tudo. Muitas vezes quando eu pegava o espelho pra apertar cravos e espinhas, a Vi dizia: “vô apetá sua bulinha”; seus dedinhos nem sabiam o que estavam fazendo e com a boquinha emitia um som de “pic, pic”, como se estivessem estourando; depois ela dizia: “agola eu”. Naquela pele perfeita de bebê ainda, eu fingia que estava apertando seus inexistentes cravinhos e também dizia: pic, pic. Saudade é o momento que dura para sempre.
Escrito por maedavivica às 16h54
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A gente sabe que ninguém é de ninguém, mas um filho é; um filho é seu pra todo o sempre; você pode ter cem anos, ele oitenta, mas ainda assim é seu filho e vai te chamar de mãe. Perder esse elo, essa ligação tão intima é como cortar o cordão umbilical durante a gestação. Perder esse som revigorante, MÃE, que te faz ser mais valente do que você realmente é, mais hábil, mais sincera; que te faz ter mais energia, mais caráter, mais responsabilidade; que faz com que você faça o que normalmente não faria, é perder a própria vida. A ligação de mãe e filho é eterna e espera-se que ele sinta sua falta nesta terra; acredita-se que ele te leve ao tumulo; o contrário é insuportável porque filho não pode morrer; filho nem cresce... Filho pode ter vida própria, ser bem sucedido, pode ter um metro e noventa, pesar cem quilos; filho pode estar distante, pode ter te esquecido; filho pode até ser bandido, mas é seu filho. Sempre e, atrás daquele semblante de adulto, terá aquelas bochechas gostosas, aquela carinha de criança, então porque eles morrem? Quebrou-se o vinculo, partiu-se; levou com ele nossa alma; pra mim sobrou o corpo, pra minha filha o espírito; e enquanto viver, não posso permitir que essa última ligação se perca, não posso deixar que ela morra de novo antes de eu morrer.
Escrito por maedavivica às 07h51
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Estou aqui filhinha e como sempre pensando em você. É domingo de manhã e estou livre do barulho urbano, insano que é o comércio; amontoado de gente, milhões de ofertas, gritaria de vendedores chamando a freguesia; sinto e ouço freneticamente tudo o que eu já não preciso, do qual não faço mais parte. Posso enfim, mais do que pensar, sentir; o silêncio me traz o lado mais doce de você, é a suavidade, a leveza, o bem estar de sua presença. Digo sempre que você é o maior amor que eu senti nessa vida, não poderia ser maior ou mais intenso, mas te amo como você era, confesso que não consigo amar ainda o que você se tornou, meu anjo na terra, é surreal, é mitológico, é desumano amar a ausência. O amor de hoje é magoado pela saudade e pela incompreensão. Fomos traídas por sua morte repentina e isso faz com que eu ame amargo; fica o gosto do que é passado e eu só consigo amar dessa maneira. Me sinto enterrada viva, morta de tudo, porque tudo era você e pequenos sorrisos que suas lembranças me trazem, são como uma homenagem à minha filha querida que eu sempre quis ter, você.
Escrito por maedavivica às 07h58
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